terça-feira, 28 de agosto de 2012

É simplesmente metafísica


Somos animais, como tal, possuímos olhos, nariz, ouvidos, pelos. Estruturas que nos permitem perceber o mundo a nossa volta a partir de diversos sentidos; olfativos, sonoros, térmicos, enfim, uma infinidade de formas. São essas estruturas, e portanto as experiências que respectivamente proporcionam, que nos permitem a concepção do mundo em que vivemos. Pensando no fato de que cada individuo possui uma forma muito intima de percepção sensorial, acredito que formamos, cada qual, sua ideia única de mundo. Verdadeiros e diversos universos pessoais, nos quais somos eternos solitários. Mas na verdade não é esse o ponto em que eu queria chegar. 

Tanto a anatomia como fisiologia comparada nos mostram que a percepção sensorial possui grande plasticidade entre organismos, dessa forma, diferentes espécies percebem o mundo de diferentes formas. Peixes possuem linha lateral, morcegos ecolocalizam e fêmeas de grilo (grilas?) sabem dizer apenas pelo canto, se seus machos possuem ou não parasitas. Adaptações que nós, macacos, não possuímos. A partir disso, percebo que nossa concepção do mundo é limitada exatamente por possuirmos uma percepção limitada. Então pergunto, temos capacidade de, a partir de conceitos únicos e exclusivamente testados e comprovados empiricamente, obter conhecimento verdadeiro sobre o mundo? (baseando-se numa percepção precária).

A concepção de que apenas o conhecimento comprovado empiricamente possui valor me incomoda. Acho um desperdício possuirmos uma mente tão fértil e nos atermos tanto no “comprovado e comprovável”. Agora sim começo a falar do que realmente era meu alvo inicial, a crença e o ateísmo. 

Acho que a busca de respostas para tudo é algo intrínseco do ser humano. Nossa capacidade absurda de observação, racionalização e argumentação, e consequentemente de aprendizado, é o combustível dessa busca incessante, o problema é que adoramos verdades universais e imutáveis, algo em essência inalcançável (sim sou um cético daqueles bem chatos). A partir dessa adoração à verdades universais, surgem respostas supremas, como deus, o aquecimento global e para alguns o ateísmo (só a parte idiota deles). 

Visto que tratam-se de verdades inalcançáveis exatamente por extrapolarem nossa limitada capacidade de percepção, atuam ao meu ver, muito mais na metafísica. Meus amigos cientistas e pesquisadores vão querer me matar, mas acho que as leis da evolução também possuem sua parte metafísica, por mais que sejam permeadas por bases empíricas. Como resultado metafísico, acho que as religiões são o reflexo do ser humano e negá-las (não no sentido de crença, sim no da ridicularização) é negar a humanidade em si, assim como sua capacidade de construção mental.

Onde entra o ateísmo na história? Agora. Por muito tempo fui um desses militantes ateus, os que acima chamei de idiotas. Idiotas primeiramente por escolherem o ateísmo como forma de chamar atenção ou se autoafirmarem como mais inteligentes. O ateísmo per se nada tem de inteligente, é simples negação, não tem argumento nem conclusão: Não existe deus algum. O argumento e conclusão não vêm da essência ateísta por si, vem sim do Darwinismo. Esse sim é o ateu que eu respeito e o qual me considero. A partir de bases empíricas (Darwinismo), racionalizo e concluo que não existe deus. Eu poderia fazê-lo também a partir de outra racionalização, se deus é bom e ele governa o mundo, por que o mundo é ruim? Concluo novamente: Não existe deus.

Essa conclusão vem de um pensamento cético e de certa forma pragmático, nem todas as pessoas conseguem ser assim tão céticas, por mais que não acreditem num deus não abraçam o ateísmo por pura covardia. Acho que o ateísmo e a crença são como capacidades, você é crente ou ateu, é difícil cambiar entre os dois pensamentos. 

Voltando a religião. Despindo-a do contexto metafísico explicativo da origem e desenvolvimento da vida, a religião opera em sua forma mais iluminada (sim seu neo-iluminista estúpido, o termo não é mero acaso!), como farol para nossa vida, guiando-nos pela nossa existência contestadora e frustrada. A religião, num sentido sociológico, é o ópio. Hoje em dia respeito muito mais as diversas religiões e não vejo nada de estúpido ou atrasado nelas, sinto até inveja daqueles que creem em algo e que em deus, (poderia ser no macarrão também, não importa) encontram conforto. 

Voltando aos ateus. O tipo de ateu (a parte deles que é estúpida) que mais me incomoda é aquele que toma o ateísmo como uma religião. Esse é o tipo de pessoa mais conturbada que existe. Sua religião, sua verdade incondicional e imutável é apenas uma negação. Como diria Pondé: isso é “olhar nos olhos do vazio que nos habita”, ou seja, se fundamentar no nada. O ateu verdadeiro, aquele que afirma não ter religião por não acreditar num deus, deve encontrar para sua rotina um farol, algo que o mova. Isso muitas vezes é difícil quando se é um cético. Diante disso, Chesterton diz: “Não há problema em não se acreditar em Deus; o problema é que se acaba acreditando sempre em alguma besteira”.