sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Só o terceiro chimpanzé tem úlceras

            Certamente um dos processos fisiológicos mais mal interpretados dentre os vertebrados é o estresse. Provavelmente apenas o fato de ler essa palavra já cause angustia em algumas pessoas. É, mas você deveria saber de uma coisa; esse processo tão estigmatizado entre nós, foi e ainda é, extremamente importante para a história evolutiva dos vertebrados. Eficiência é uma palavra que combina com sucesso adaptativo, acredito que qualquer evolucionista irá concordar com essa premissa, dai então a importância do estresse (sentiu novamente aquela pontada na espinha não é?). É possível caracterizar esse processo como a redistribuição de reservas energéticas entre os sistemas do organismo em questão, portando, pode-se dizer que o estresse prepara o organismo para sobrepor (ou pelo menos tentar) algum acontecimento muito importante que ocorrerá num futuro próximo, como a disputa por uma fêmea, voce fugindo de uma zebra ensandecida (que por tocar no assunto, não tem ulceras. Google) ou conhecer o seu sogro (sim ele te odeia) numa ocasião totalmente inesperada, na qual você está totalmente despreparado e talvez até mesmo sob efeito de alguma substancia psicoativa ou apenas com uma puta de uma ressaca.

         Sim, os animais redistribuem suas reservar energéticas, pense: Para disputar aquela fêmea, um hipopótamo vai querer ter eficiência na sua contração muscular afim de não apanhar do outro macho de 3 toneladas que possui enormes pares de caninos, da mesma forma, você vai querer ter folego para correr como o Forrest Gump ao fugir daquele equino monocromático, além de ter reflexos rápidos para escapar de seus coices, visto que obviamente, a zebra é mais rápida do que você. No caso de seu sogro, esqueça, você já está f(u)dido. Usei esses exemplos para tentar demostrar o que ocorre durante o processo de estresse: o hipotálamo (aquela parte do teu cérebro que controla coisas como suas emoções) estimula o Sistema Nervoso Autônomo Simpático e aumenta sua glicose plasmática (aquele açúcar que fica no sangue e é usado na respiração de todas as células do teu corpo, Glicólise e ciclo de Krebs, blabla.) pela liberação de catecolaminas (como a adrenalina) e corticosteroides, essa glicose é gerada a partir das tuas reservas de glicogênio hepático, lipidios e proteína.
   
       Tudo muito bom, tudo muito bem, mas para ocorrer tal aumento na eficiência dos sistemas descritos anteriormente, toda essa “energia” deve sair (ser realocada) de algum lugar certo? Claro, acredito que ao fugir de uma horda de leoas famintas e psicóticas, um grupo de antílopes não se importará em deixar de investir, momentaneamente, no seu sistema imune nem em fatores importantes de sua reprodução (gametogênese, maturação de suas gônadas) e muito menos em suas defesas antioxidantes a radicais livres.

        Certamente a palavra mais importante que usei no paragrafo anterior foi momentaneamente. Perceba que toda a genialidade, se é que esse é um adjetivo válido, do processo de estresse é seu curto período de duração, pelo menos em teoria. O problema (antropológico) do estresse é sua cronificação, que causa problemas reprodutivos, imunológicos, psicológicos, acredito que não preciso citar os danos relacionados ao estresse. Acredito que o nosso grande problema com o estresse seja a nossa complexidade psicológica que se encontra desnorteada em uma sociedade caótica, na qual as principais (e talvez únicas) problemáticas de todas as espécies (nascer, crescer, reproduzir muito, morrer e durante tudo isso, ter o que comer e agua para beber), foram rebaixadas a questões supérfluas frente a preocupações “maiores” como a crise global, suas publicações, a menstruação atrasada da sua namorada e o Brasileirão. É curioso observar esse paradoxo; as mesmas questões que nos tornam tão especiais dentre nossos irmãos chimpanzés (e dentre todos os animais) são as mesmas questões que nos provocam tantos males.

       A capacidade de prever, hipotetizar, interpretar e racionalizar certamente foram questões muito importantes para os homens de Cro-magnon e Neandertais, sendo também muito importantes para nós até hoje, mas perceba que acabamos por nos tornar eficientes torturadores de nós mesmos. Existe uma tortura chinesa muito conhecida, chamada a gota chinesa: a pessoa é amarrada a uma cadeira e sua cabeça é presa de tal forma que possibilite o lento gotejar de agua em sua testa, aos poucos, seu crânio vai sendo perfurado pela agua. Entenda que o principal mecanismo danoso dessa tortura não é a intensidade da dor, que no caso vem depois de horas de tortura, sendo pouco eficiente, mas sim na previsão de quando a gota cairá. É exatamente oque ocorre conosco, somos muito eficientes em planejar, hipotetizar e prever, muitas vezes acabamos por nos torturar psicologicamente apenas pela constante lembrança daquela prova futura, do medo de conseguir uma pós boa, não ser um desempregado, não perder o dinheiro que você aplicou no mercado imobiliário dos EUA, Et cetera. Percebe? Tornamos crônico o estresse apenas por sermos seres extremamente inteligentes (?????) e nós nos estressamos por questões supérfluas. Uma zebra só vai liberar catecolaminas e corticoesteroides quando estiver batalhando por sua vida, por sexo ou comida, coisas tão fáceis para nós hoje em dia (se tiver dinheiro é claro).

       Em resposta ao titulo deste texto:  o processo crônico de estresse faz com que as concentrações plasmáticas de corticoesteroides estejam sempre altas. Esses hormônios inibem a produção de prostaglandinas, substâncias usadas na produção do muco protetor das paredes do nosso estomago. Na falta desses compostos, não produzimos esse muco e o nosso ácido estomacal ataca as paredes do nosso estomago, temos portanto, úlceras (nesse caso, nervosas).

3 comentários:

  1. Nossa alimentação é deficiente e o estresse, que foi selecionado pela mãe natureza como um processo vital, hoje se revolta, associado com o lixo que comemos. Progredimos mais rápido que evoluímos.

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  2. Realmente, negligenciei totalmente o papel da má alimentação no texto. Certamente há relação entre tais fatores. "Progredimos mais rápido que evoluímos." concordo plenamente, já discutimos as questões de pressão de seleção na nossa espécie, continuo a pensar que a partir do ponto onde estamos, nossa evolução, como espécie, não será regida por forças de seleção natural, e sim pelo acumulo do nosso conhecimento. Ainda estamos à mercê de pressões seletivas, não nego, mas com o advento da medicina, da agricultura e da ciência em geral, construímos a nossa volta um "ambiente despressurizado", diminuindo a ação de tais forças na nossa sobrevivência e sucesso reprodutivo. Tenho medo quando penso que talvez, em um futuro próximo, essas pressões de seleção virão de nossa própria espécie. A guerra, a fome e a sede talvez tomem as rédeas que tiramos, em parte, “da mãe natureza”. Será que algum dia, comportamentos relacionados a questões como consciência ambiental e controle populacional, serão caracteres distinguíveis como essenciais ao sucesso evolutivo de nossa espécie? Assim como o anualismo foi, e é, importantíssimo aos Rivulideos. Nossa inteligência (i)racional é um fator evidente de nossa evolução, será também o fator chave de nossa extinção?

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    1. Nossa inteligencia nos fez conseguir transpor um pouco a capacidade de suporte de nossa espécie. Porém já está evidente que existe uma pressão intraspecifica selecionando determinados indivíduos, afinal, nossa cultura reflete nosso comportamento e nossa cultura aceita a desigualdade social como algo "normal". Acredito que futuramente existirá uma pressão seletiva bem maior para determinados grupos humanos.

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