sábado, 31 de março de 2012

Discorrendo sobre a racionalidade


         Nós, sapienses, sempre nos gabamos de nossa inteligência superior. Muitos a relacionam com o fato de termos quebrado as barreiras da irracionalidade, mas em um contexto evolutivo, às vezes me pergunto, o quanto de vantagem existe nisso? Questões ligadas a irracionalidade, ou seja, o comprimento exato de etapas da historia de vida das espécies, não existem por nada. Tais comportamentos foram selecionados por algum motivo e dessa forma, permitem àquela espécie seu sucesso adaptativo em um contexto ecológico muito maior, esse contexto muitas vezes ultrapassa os limites da individualidade, abrangendo toda aquela espécie em um sentido muito mais amplo, alem de nossa limitada capacidade de hipotetização. Vou dar-lhes um exemplo: a gralha azul é um pássaro bem inteligente, para garantir sua boia, ela enterra os pinhões que coletou durante o dia. Posteriormente ela vai ao local onde depositou aquele pinhão e o come, que corvideo bem inteligente, mas alguns pesquisadores não concordam com essa minha afirmação, sabe por quê? Esse animal de penas azuis nunca desenterra todos seus pinhões, muitos biólogos dizem que ela não lembra onde os enterrou, mas pra mim é a sabedoria da irracionalidade falando. Esse pinhão esquecido irá gerar futuramente uma arvore que irá produzir alimento para os bisnetos da gralha.

     Nossa racionalidade nos permite passar por cima desses comportamentos aparentemente dispendiosos e pouco eficientes, não faz sentido esperar que arvores deem frutos naturalmente em seus ambientes se podemos limpar um campo e plantarmos ali apenas algumas espécies de nosso interesse. Não pensamos que o solo necessita de um ciclo bio-geo-quimico complexo para se manter fértil e quando percebemos isso, inventamos uma coisa extremamente cara e poluente chamada fertilizante. 
        
         Nossa inteligência nos permitiu criar atalhos dentro de processos e ciclos naturais importantíssimos de nosso planeta e dessa forma os alteramos, mas será inteligente irmos contra milhares de anos de adaptações? Muitos têm a prepotência de achar que temos muito a ensinar a comunidades indígenas, mas acho que as conexões que essas comunidades possuem com seu ecossistema são de uma sabedoria extrema e tais conhecimentos nunca deveriam ser esquecidos.

Às vezes acho que nossa inteligência nos proporcionou até mesmo a fuga, pelo menos em parte, das forças de seleção natural. Temo pela destruição de nossos habitats, digo isso não porque acho que vamos acabar com o planeta, acho essa ideia um pouco ingênua, temo sim por nossa espécie. Escrevi uma vez, em resposta a um comentário de um grande amigo, algo sobre o assunto, fecho esse post com parte da resposta.

 ... “já discutimos as questões de pressão de seleção na nossa espécie, continuo a pensar que a partir do ponto onde estamos, nossa evolução como espécie não será regida por forças de seleção natural, e sim pelo acumulo do nosso conhecimento. Ainda estamos à mercê de pressões seletivas, não nego, mas com o advento da medicina, da agricultura e da ciência em geral, construímos a nossa volta um "ambiente despressurizado", diminuindo a ação de tais forças na nossa sobrevivência e sucesso reprodutivo. Tenho medo quando penso que talvez, em um futuro próximo, essas pressões de seleção virão de nossa própria espécie. A guerra, a fome e a sede talvez tomem as rédeas que tiramos, em parte, “da mãe natureza”. Será que algum dia, comportamentos relacionados a questões como consciência ambiental e controle populacional, serão caracteres distinguíveis como essenciais ao sucesso evolutivo de nossa espécie? Assim como o anualismo foi, e é, importantíssimo aos Rivulideos. Nossa inteligência (i)racional é um fator evidente de nossa evolução, será também o fator chave de nossa extinção?

domingo, 25 de março de 2012

Adaptação


Seria a adaptação uma tendência universal das coisas? “acomodação às condições” diz o dicionário. Certamente os biólogos lendo esta página logo pensaram em evolução, seleção natural e todo o darwinismo característico dos naturalistas, mas um químico também observa em seu objeto de trabalho características de adaptação, a tendência ao equilibro osmótico não seria uma forma de adaptação? A formação de sais ao se misturar ácidos e bases também não o seriam? Um físico que observa a tendência a estabilidade de átomos ao formar moléculas, não estaria ele observando algum tipo de tendência à adaptação? Um (a) psicólogo (a), que observa e analisa uma mudança de comportamento em seu paciente, não estaria vendo ali adaptações?

Adaptação me remete a pressões de seleção, então me pergunto: existe algo mais incrível? Tal qual o pincel do pintor, os esquadros do arquiteto e a espátula do escultor, as pressões de seleção moldam os organismos a seu bel-prazer. Da mesma forma que Tarsila pintou abaporu, obra genial e símbolo da antropofagia modernista, o meio modela os organismos que ali vivem. Exigências atendidas são recompensadas com o direito a vida, na dura batalha pela sobrevivência. Aqueles que recebem a dádiva da adaptação resplandecem e simplesmente perpetuam-se, seguindo o único objetivo da vida: ser aquilo que se é, ser for bom o suficiente, ganha-se por direito a possibilidade de continuar vivendo, pelo menos em parte  (como Genes, leia "O gene egoista"),  dentro da linhagem dos adaptados.

 Como posso não me extasiar ao observar a forma como os peixes que trabalho estão adaptados ao seu meio? Sabe aqueles campos, tão comuns nos pampas, ali se formam poças, ninguém da à mínima para essas poças, mas ali, tal como perolas, emergem peixes; resultado magnífico: adaptações comportamentais, morfológicas, fisiológicas e moleculares. Como não se entusiasmar ao ver a forma como as águas do sul da nova Zelândia e da antártica exigem, cada local a sua maneira, adaptações diversas de um mesmo grupo de peixes, uns mantendo suas adaptações á variação térmica e outros perdendo-as. 

A adaptação é a tendência natural das coisas, a procura pelo equilíbrio, mas quando já alcançamos um nível considerável de adaptação, ou formas de construir adaptações através da inteligência, qual o próximo objetivo da vida? Acho que o objetivo maior de nossa espécie é simplesmente a felicidade no contexto que for.