“Segundo
Luc Ferry, o medo da morte é a gênese de todas as religiões. A grande diferença
entre um ateu e um crente talvez seja que os ateus, ao contrário dos crentes,
paradoxalmente acreditam na morte.” Por esses dias me deparei
com essa frase do Tony Bellotto, que me fez pensar um pouco sobre o assunto.
O
medo da morte como fator catalisador para o surgimento e desenvolvimento – e porque
não como força manipuladora? – das religiões é algo muito lógico, é uma
conclusão que cai de maduro. Esse medo é a força motriz da religião, mas talvez
esse seja o papel mais relevante da filosofia teológica na pós-modernidade.
Antes, a religião era doadora de moral, tinha um papel importante em mostrar
como podemos viver em relativa paz dentro de sociedades complexas, repletas de
desigualdades tanto sociais como do pensamento. Com o desenvolvimento do Iluminismo
europeu e suas influências na revolução francesa – e o lento engatinhar da
democracia – o contexto da moral passa a ser construído de uma forma muito mais
descentralizada dentro da sociedade ocidental – europeia principalmente –
florescendo como propriedade emergente dos ideais religiosos, burgueses e
aristocráticos. Dessa forma, as religiões perderam o monopólio sobre a moral
com o passar dos séculos – felizmente. A religião também já foi responsável em
explicar a origem metafísica da natureza, do mundo e do universo. Explicações
que hoje são da responsabilidade da ciência e da filosofia.
O
que sobrou para a religião? Nossa concepção de finitude – vulgo medo da morte.
Nenhuma vertente do pensamento permitiu ao homem lidar com a noção da morte
como a filosofia teológica. Essa é a influência positiva da religião na
sociedade atual. Influência tal sustentada não pela simples negação da morte,
como pode parecer pelo texto do Tony Bellotto, e sim por racionalizações
diversas – céu, inferno, paraíso com várias virgens e afins. A religião não
tenta desacreditar a morte, a religião faz com que o homem esqueça que ela
sempre vem.
A
fuga dessa ideia - da morte - é, na verdade, algo intrínseco ao ser humano,
independente de religião. A noção da finitude é nossa maior agonia, e mesmo os
ateus fazem suas racionalizações - muitas vezes mais estúpidas do que aquelas estruturadas
na religião - como: "não morremos, apenas voltamos a ser matéria inerte
dentro de um ciclo ecológico, de onde provimos" ou qualquer baboseira que
fale de energias desconhecidas e inominadas, ou ainda a ideia de que
"morrerei em matéria, mas deixarei um legado científico - ou histórico - que
me tornará imortal", muito comum nas civilizações pré-cristianismo.
Tanto as racionalizações
provindas da religião como aquelas provindas do ateísmo não possuem o propósito
de nos enganar sobre a existência ou não da morte - todo o homem sabe a resposta
para essa pergunta - proporcionam, na verdade, uma oportunidade de fuga da fria
noção de finitude. Noção com a qual nos deparamos a cada esquina.