segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Ateísmo infantil


O termo “ateísmo infantil” me lembra uma criança que tenta mostrar aos pais - frustrada e enraivecida - que já é adulta. Ela se sente adulta, porque não o seria?. Paradoxalmente, o próprio fato de uma criança se ver como “já adulta” é exemplo maior da sua imaturidade. A infantilidade escorre molhada de seus olhos. Da mesma forma, ter fé que não se tem fé alguma, é fundamentar-se num paradoxo puro e sem valor epistemológico.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Para meu Pai

Pai poeta

Sempre fomos minimalistas,
Construímos nossa relação desse jeitinho,
Na simplicidade da forma,
Mas não menos intensa,
Apenas assim,
Simples na estética
E contundente na alma.
Hoje eu entendo a sua escrita,
Pena que só agora.
Quem sabe se não tivesse tardado tanto
Teria percebido mais cedo:
As criticas que te fiz,
Todas autorreferentes.
Pai médico da alma até sem perceber,
Mostra-me no reflexo do espelho, 
Minhas rachaduras.

Pai poeta,
Me ensina ser
Menos dicionário e
Mais - simples - haikai?

Primeiros Haikais

Flutuamos

Tropecei em ti
Igualmente, tu em mim.
Nós não caímos.


Lara

Eu, burra razão.
Tu, puro sentimento:
Ensina amor.


Cogito ergo sum

Sinápses geram,
De dentro para fora,
Ilusões mentais.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Discurso de formatura

              Pois bem, final de semana passado me formei como Biólogo. Apesar de não sentir diferença alguma, formalmente avancei um passo na vida - ou não. Seguindo formalidades, toda a colação demanda um orador, tive o prazer de ser eleito como tal, juntamente com uma de minhas colegas. Tive um certo trabalho em escrever minha parte do texto, não sabia como direcionar a oratória. Poderia falar de ideologias, sobre biologia, sobre Darwin, poderia falar das dificuldades que a faculdade sofre frente a incapacidade da reitoria em lidar com problemas simples - luz, água, limpeza - afim de constranger o reitor ou seu representante, enfim, uma infinidade de coisas, mas me parecia que aquele não era o momento para essas colocações. Decidi lembrar meus colegas sobre pontos importes da graduação. Acho que optei pelo caminho mais difícil. Falar de sentimentos sempre foi um desafio, prefiro a frieza - e a clareza - da lógica. Minha tentativa - meio frustrada na minha opinião - se encontra abaixo. Espero ler esse texto daqui uns 20 ou 30 anos e lembrar como era bom ser graduando e - pensar - saber tudo.   

Yuri:
            Depois de ser eleito com um dos oradores da turma, fui arrebatado com uma dúvida constrangedora em sua simplicidade: O que faz um orador? A resposta a esta pergunta ditaria o rumo do discurso que insistia em ocultar-se.  Após algum tempo de reflexão me convenci de uma resposta: o orador deve dissecar os anos de graduação e expor o que eles significaram. Que tarefa árdua que nos foi concedida. Árdua porque não consiste em conceitualizar coisas concretas como o que é biologia. Qualquer dicionário nos responde isso prontamente: biologia é o estudo da vida. A tarefa do orador é árdua porque consiste em expor os sentimentos que estes 5 anos de graduação nos proporcionaram.  Dessa forma, não fundamentamos nossa oratória na razão, e sim, nas sensações.

Convido meus colegas a lembrarem-se do dia da matricula. Esperávamos ansiosos a chamada das senhas de atendimento lá nas cadeiras do MERCOSUL. Carregávamos em nossas mãos dezenas de documentos, e a certeza de que havíamos esquecido algum papel imperava. Imperava também o medo que sentíamos de encontrar nossos veteranos pela primeira vez, eles nos esperavam lá fora, munidos de tinta, esmalte e muita vontade de nos sujar. Naquele dia exibimos orgulhosos pelas ruas de pelotas as medalhas do vestibular, os símbolos de que éramos bichos: Tinta na cara e esmalte nos ouvidos.  Depois vieram os primeiros dias de aula, dava pra ver de longe que éramos bichos, vagávamos incertos pelo campus capão do leão, que para nós, mais parecia um enorme labirinto. A sensação de estranheza aumentou ainda mais quando percebemos que a faculdade não era exatamente como imaginávamos. Aliada a essa sensação de estranheza vinha a crônica tortura de esperar pelo trote. Dizem que foi o pior da história da biologia, naquele dia sentimos raiva, nojo e felicidade. Os espólios do trote nos proporcionaram uma festa. Nossa primeira festa da faculdade. De fato, ela foi diferente de todas as outras que tivemos. Algumas amizades que se formaram ali perduram fortes até hoje. Alguns amores também começaram lá, outros terminaram lá. Com o passar do tempo, fomos nos sentindo mais seguros em relação à escolha do curso e nos acostumamos com o ritmo da vida universitária: nas manhãs e tardes assistíamos às aulas ou trabalhávamos em nossos laboratórios e nas noites tomávamos cerveja pela católica ou pelos bares do porto. Nos acostumamos até mesmo a assistir aula de ressaca. E assistimos muitas aulas! Mas algumas delas nos marcaram mais. Como as aulas do Zefa, sempre atencioso, ou então ver o Robaldo totalmente sujo de giz depois de explicar o que é o sistema contra-corrente, rir com as piadas do Cezar e do jeito queridão do Dornelles que para mim sempre foi “tio Zeca”, ou ainda achar aquela planta que faltava para o herbário da Carol. Estes foram alguns dos professores que tomamos como exemplo.

Alguns momentos também nos provocaram ansiosidade e nervosismo, como a primeira apresentação de trabalho em um congresso cientifico ou os segundos que precediam a arguição das diversas bancas avaliadoras que enfrentamos. Ficamos todos irritados com a dificuldade que sentíamos em escrever nossos primeiros resumos, mas o prazer de perceber que com o tempo escrevíamos cada vez melhor foi imenso. Foi mais ou menos nessa época de amadurecimento científico que ganhamos nossa primeira bolsa, como descrever a felicidade e orgulho que sentimos neste dia? Começávamos a nos sentir pesquisadores. O próximo passo foi escrever o projeto de TCC, finalmente a liberdade de fazer exatamente aquilo que queríamos. Nesse momento estávamos no ultimo ano e a noção de que a graduação estava acabando crescia a cada dia. Num piscar de olhos, estávamos na semana da defesa do nosso TCC – que obviamente não estava pronto - e a ansiosidade imperava em todos nós, a ultima vez que a graduação nos deixou preocupados. TCC defendido e impresso em sua versão final, todos nós percebemos que a graduação havia, enfim, acabado.

Luana:
Se pensarmos mais um pouco sobre e nossa escolha de curso, até que é meio assustador, pois escolhemos aquela profissão que justamente vai aprender sobre a vida e no final percebemos que quanto mais estudamos mais falta informação sobre os diferentes tipos de vida sobre a terra.

        Mas não adianta desistirmos agora, já estamos formados.

         Por que sabe o que assusta? Por que a vida é extremamente complexa na sua perfeição e são aquelas benditas perguntas que sempre ouvimos que nos deixam angustiados. “Que planta é essa?”, “Que bicho é esse?” e na maioria das vezes não sabemos responder por que pode ser qualquer coisa, tantos gêneros e epítetos específicos. Então não pensem “Que biólogo é esse?” porque estudamos de maneira geral e mesmo que estudemos o resto da vida seria impossível conhecer tudo sobre todos os tipos de vida.

            Os formandos aqui hoje estão entre licenciados e bacharéis, a diferença óbvia entre os dois é que o primeiro escolheu trabalhar mais diretamente com o ser vivo mais difícil de se entender, nós mesmos, e o segundo prefere trabalhar mais em segundo plano.

           É difícil dar aulas, porque comparado com outros trabalhos científicos, parece ser mais fácil capturar insetos e espetá-los em alfinetes para os estudar numa chave de identificação. Mesmo se quiséssemos, não podemos fazer isso com os alunos. Até porque não existem chaves de identificação de alunos. Dentro de uma sala de aula, temos 40 alunos da mesma espécie, mas de comunidades diferentes, que habitam o mesmo habitat ou não, e que talvez tenham acesso aos mesmos recursos e se tem acesso eles competem e se competem geram caos. Caos significa barulho que gera dispersão, e se ninguém para quieto como você vai dar sua aula?

        E você fica lá, tentando pensar em todas as aulas que teve nos semestres anteriores, repassando todas as cadeiras pedagógicas, as aulas do Robledo, tentando achar algum autor entre Vygostky, Piaget, Darwin... que te ajude naquela situação... Ai você começa a entender que para o ser humano não existe uma chave de identificação, cada ser  tem suas características inigualáveis, o que os torna dificílimos de se compreender.
Aprendizes de biólogos são seres estranhos, por que além de amar tudo o que é vivo, nós também queremos que os outros amem também. E se vai ser professor quer que todos se conscientizem sobre a vida e a importância dela nos 90 minutos de aula, tentando convencer que há beleza no Ciclo de Krebs.

Estamos nos formando hoje, mas não significa que todos seremos professores de profissão. Talvez demore um pouco mais para entrar ativamente numa sala de aula, mas a maioria vai acabar dando aula seja como professor de ensino fundamental, médio ou da universidade. Ou até mesmo indiretamente porque sendo biólogo, cada vez que alguém te pergunta “Como os dinossauros foram extintos?” ou “Por que a grama é verde?”, você acaba dando uma aula de tanta explicação do porquê daquilo tudo, e você acaba ensinando alguém.

 Pois é, cinco anos de convivência. De risos, choros, brigas, disciplinas tenebrosas, saídas de campo, horas a fio esmagados como sardinha no ônibus, horas na fila do único xérox do campus, aquela espera para o lanche da tia que salva a fome de todos na biologia, horas enchendo o saco do Fernando para pedir atestado, arrumar a matricula ou apenas para conversar. E o tempo passou e ao longo desses anos mudamos. Mudamos além daquela nossa carinha de criança no começo da faculdade. Será que envelhecemos e ganhamos rugas? Acho que não, continuamos lindos.  Mudamos porque fazemos o que gostamos, depois de tanto estudo chegamos até aqui. Cansa é verdade, mas não deixamos de gostar de biologia por que tinha calculo e estatística. Sim, nós perguntávamos para que servia aquilo, além de nos fazer reprovar eternamente, mas sobrevivemos a tudo isso e o que veio depois.

Querida turma, se convivemos muito ou pouco com os outros nesse momento não importa muito. Por que da mesma maneira em que naquele dia em que prestamos o vestibular, hoje todos nós estamos aqui por um único objetivo também, sermos finalmente biólogos! Afinal de contas são nossos últimos momentos, como a turma ATCB 2013/2. Então respirem fundo, acabou mais uma etapa, é hora de comemorar e derramar algumas lágrimas de alegria e saudade. Saudade? Porque não? Talvez não nos veremos mais, a partir de hoje, cada um vai para um canto, alguns farão mestrado, especialização, arrumarão emprego e seguiram com suas vidas. Mas não se sintam tristes, seremos eternizados em um quadro que ficará no corredor da biologia, para que todos vejam que sim, vale a pena estudar, nós somos a prova disso.

Yuri:
            Pois bem caros colegas, a graduação, de fato, acabou. Devemos enfrentar agora a vida como graduados. Muitos podem sair daqui com um sentimento de insegurança, peço que não o façam. Não se deixem assolar por nenhum tipo de sentimento de inferioridade por terem se formado em uma universidade relativamente pequena. Nossa formação foi sim muito boa e perde em muito pouco, e talvez em nada, quando comparada a formação em capitais como São Paulo e Porto Alegre. Em um mundo cada vez mais especialista, nos formamos generalistas e por isso devemos nos sentir preparados. Claro que não será fácil, mas devemos procurar sempre fazer aquilo que gostamos, o sucesso do biólogo depende disso. O biólogo é bem sucedido quando trabalha com o que gosta. E afinal de contas, não foi por isso que decidimos fazer biologia? Para fazer aquilo que gostamos? Nunca se esqueçam disso, não desistam da escolha pela felicidade.

        Para terminar, digo a vocês meus colegas, que sairemos daqui, desse salão, como bacharéis ou licenciados em ciências biológicas e que nossa graduação estará oficialmente concluída. Certamente sentiremos saudades do tempo que passamos juntos. Como a poesia sempre soube lidar melhor com os sentimentos do que a ciência, indico a vocês um texto do Drummond ao qual sempre apelo quando penso em saudade. Espero que ele se torne para vocês o que ele é para mim, um marco de tudo que me faz falta:

                                        O poema se chama “memória”
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Boa noite e obrigado a todos.


terça-feira, 25 de junho de 2013

A finitude nos persegue

“Segundo Luc Ferry, o medo da morte é a gênese de todas as religiões. A grande diferença entre um ateu e um crente talvez seja que os ateus, ao contrário dos crentes, paradoxalmente acreditam na morte.” Por esses dias me deparei com essa frase do Tony Bellotto, que me fez pensar um pouco sobre o assunto.

O medo da morte como fator catalisador para o surgimento e desenvolvimento – e porque não como força manipuladora? – das religiões é algo muito lógico, é uma conclusão que cai de maduro. Esse medo é a força motriz da religião, mas talvez esse seja o papel mais relevante da filosofia teológica na pós-modernidade. Antes, a religião era doadora de moral, tinha um papel importante em mostrar como podemos viver em relativa paz dentro de sociedades complexas, repletas de desigualdades tanto sociais como do pensamento. Com o desenvolvimento do Iluminismo europeu e suas influências na revolução francesa – e o lento engatinhar da democracia – o contexto da moral passa a ser construído de uma forma muito mais descentralizada dentro da sociedade ocidental – europeia principalmente – florescendo como propriedade emergente dos ideais religiosos, burgueses e aristocráticos. Dessa forma, as religiões perderam o monopólio sobre a moral com o passar dos séculos – felizmente. A religião também já foi responsável em explicar a origem metafísica da natureza, do mundo e do universo. Explicações que hoje são da responsabilidade da ciência e da filosofia.

O que sobrou para a religião? Nossa concepção de finitude – vulgo medo da morte. Nenhuma vertente do pensamento permitiu ao homem lidar com a noção da morte como a filosofia teológica. Essa é a influência positiva da religião na sociedade atual. Influência tal sustentada não pela simples negação da morte, como pode parecer pelo texto do Tony Bellotto, e sim por racionalizações diversas – céu, inferno, paraíso com várias virgens e afins. A religião não tenta desacreditar a morte, a religião faz com que o homem esqueça que ela sempre vem.

A fuga dessa ideia - da morte - é, na verdade, algo intrínseco ao ser humano, independente de religião. A noção da finitude é nossa maior agonia, e mesmo os ateus fazem suas racionalizações - muitas vezes mais estúpidas do que aquelas estruturadas na religião - como: "não morremos, apenas voltamos a ser matéria inerte dentro de um ciclo ecológico, de onde provimos" ou qualquer baboseira que fale de energias desconhecidas e inominadas, ou ainda a ideia de que "morrerei em matéria, mas deixarei um legado científico - ou histórico - que me tornará imortal", muito comum nas civilizações pré-cristianismo.

Tanto as racionalizações provindas da religião como aquelas provindas do ateísmo não possuem o propósito de nos enganar sobre a existência ou não da morte - todo o homem sabe a resposta para essa pergunta - proporcionam, na verdade, uma oportunidade de fuga da fria noção de finitude. Noção com a qual nos deparamos a cada esquina.

domingo, 2 de junho de 2013

Fome das cavernas

Nos sábados, eu gosto de acordar - sem ser acordado - razoavelmente cedo, algo como 11 hrs, depois de uma sexta agradável, com cerveja e amigos. Isso depois de ter bebido o suficiente para incentivar conversas boas, sem muito moralismo. 

O suficiente também para me fazer acordar sem ressaca, mas com aquela sensação que temos depois de uma noite inteira processando o álcool usado para afogar conversas chatas. 

A metabolização da mágica substância depende da quebra do nosso glicogênio hepático (nossa principal reserva energética). Essa diminuição de "estoque energético" nos leva a uma situação quase primitiva. Um tempo em que comida – portanto energia – era recurso limitado. 

Essa condição primitiva de depleção glicogênica me coloca num estado de fome muito específico, prazerosamente extinto depois do almoço que faço ao acordar cedo. 

Acho que há 30 mil anos atrás Homo sapiens tinha mais prazer ao comer do que hoje.

A criança gênio zen-budista transcendental por nascença



Essa linda criança têm feito a cabeça de praticamente todos os meus amigos vegetarianos. Resolvi escrever minha leitura do vídeo. 

Na minha visão, esse moleque não é vegetariano. Ele está apenas enrolando a mãe pra não comer.

 Vou ainda mais fundo na hipótese: A mãe dele é dessas "sentimentalistas bobas" que se emocionam com qualquer besteira que o filho faça - como no vídeo, ela chora ao acreditar que o filho é "vegetariano por nascença", talvez ela chegue até a pensar que por tal "amadurecimento precoce", seu filho seja uma espécie de gênio zen-budista transcendental.

Dessa forma, nosso pequeno manipulador, conhecendo o feitio "meio bobo" da mãe, a manipula utilizando aquilo que ela tem mais de mais ingenuo ao seu favor. Comportamento característico de uma forma de vida precoce - mas ainda assim inteligente - constantemente inferiorizada por tal razão. 

As crianças tem uma capacidade quase assustadora de manipular seus pais. Pessoas que, no fundo, são sempre velhos babões e cegos no que diz respeito a seus filhotes.