terça-feira, 30 de outubro de 2012

Homenagem à mulher emancipada

Ela

A perna semi aberta, a saia um tanto curta. Casada, linda e independente, num restaurante chique, tem resposta para tudo, conversa sobre cinema, hábitos contemporâneos, muitos amigos à mesa. A boca seca esconde a alma úmida, pedindo a presença de alguém entre suas pernas. Sonhado em ser feita apenas objeto, como se numa caverna estivesse, coberta de pelos, e a alma no cio, Sonha com alguém que não a respeite, não pergunte o que ela quer, não a obedeça, não tenha medo dela, diga “não”, faça com que ela sinta sua carência explodir, sua fraqueza lhe definir. Eu a vi, sentada, tentando esconder o suor entre as pernas.

Luiz Felipe Pondé – Contra um Mundo Melhor (Ensaios do Afeto), pag. 103.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

É simplesmente metafísica


Somos animais, como tal, possuímos olhos, nariz, ouvidos, pelos. Estruturas que nos permitem perceber o mundo a nossa volta a partir de diversos sentidos; olfativos, sonoros, térmicos, enfim, uma infinidade de formas. São essas estruturas, e portanto as experiências que respectivamente proporcionam, que nos permitem a concepção do mundo em que vivemos. Pensando no fato de que cada individuo possui uma forma muito intima de percepção sensorial, acredito que formamos, cada qual, sua ideia única de mundo. Verdadeiros e diversos universos pessoais, nos quais somos eternos solitários. Mas na verdade não é esse o ponto em que eu queria chegar. 

Tanto a anatomia como fisiologia comparada nos mostram que a percepção sensorial possui grande plasticidade entre organismos, dessa forma, diferentes espécies percebem o mundo de diferentes formas. Peixes possuem linha lateral, morcegos ecolocalizam e fêmeas de grilo (grilas?) sabem dizer apenas pelo canto, se seus machos possuem ou não parasitas. Adaptações que nós, macacos, não possuímos. A partir disso, percebo que nossa concepção do mundo é limitada exatamente por possuirmos uma percepção limitada. Então pergunto, temos capacidade de, a partir de conceitos únicos e exclusivamente testados e comprovados empiricamente, obter conhecimento verdadeiro sobre o mundo? (baseando-se numa percepção precária).

A concepção de que apenas o conhecimento comprovado empiricamente possui valor me incomoda. Acho um desperdício possuirmos uma mente tão fértil e nos atermos tanto no “comprovado e comprovável”. Agora sim começo a falar do que realmente era meu alvo inicial, a crença e o ateísmo. 

Acho que a busca de respostas para tudo é algo intrínseco do ser humano. Nossa capacidade absurda de observação, racionalização e argumentação, e consequentemente de aprendizado, é o combustível dessa busca incessante, o problema é que adoramos verdades universais e imutáveis, algo em essência inalcançável (sim sou um cético daqueles bem chatos). A partir dessa adoração à verdades universais, surgem respostas supremas, como deus, o aquecimento global e para alguns o ateísmo (só a parte idiota deles). 

Visto que tratam-se de verdades inalcançáveis exatamente por extrapolarem nossa limitada capacidade de percepção, atuam ao meu ver, muito mais na metafísica. Meus amigos cientistas e pesquisadores vão querer me matar, mas acho que as leis da evolução também possuem sua parte metafísica, por mais que sejam permeadas por bases empíricas. Como resultado metafísico, acho que as religiões são o reflexo do ser humano e negá-las (não no sentido de crença, sim no da ridicularização) é negar a humanidade em si, assim como sua capacidade de construção mental.

Onde entra o ateísmo na história? Agora. Por muito tempo fui um desses militantes ateus, os que acima chamei de idiotas. Idiotas primeiramente por escolherem o ateísmo como forma de chamar atenção ou se autoafirmarem como mais inteligentes. O ateísmo per se nada tem de inteligente, é simples negação, não tem argumento nem conclusão: Não existe deus algum. O argumento e conclusão não vêm da essência ateísta por si, vem sim do Darwinismo. Esse sim é o ateu que eu respeito e o qual me considero. A partir de bases empíricas (Darwinismo), racionalizo e concluo que não existe deus. Eu poderia fazê-lo também a partir de outra racionalização, se deus é bom e ele governa o mundo, por que o mundo é ruim? Concluo novamente: Não existe deus.

Essa conclusão vem de um pensamento cético e de certa forma pragmático, nem todas as pessoas conseguem ser assim tão céticas, por mais que não acreditem num deus não abraçam o ateísmo por pura covardia. Acho que o ateísmo e a crença são como capacidades, você é crente ou ateu, é difícil cambiar entre os dois pensamentos. 

Voltando a religião. Despindo-a do contexto metafísico explicativo da origem e desenvolvimento da vida, a religião opera em sua forma mais iluminada (sim seu neo-iluminista estúpido, o termo não é mero acaso!), como farol para nossa vida, guiando-nos pela nossa existência contestadora e frustrada. A religião, num sentido sociológico, é o ópio. Hoje em dia respeito muito mais as diversas religiões e não vejo nada de estúpido ou atrasado nelas, sinto até inveja daqueles que creem em algo e que em deus, (poderia ser no macarrão também, não importa) encontram conforto. 

Voltando aos ateus. O tipo de ateu (a parte deles que é estúpida) que mais me incomoda é aquele que toma o ateísmo como uma religião. Esse é o tipo de pessoa mais conturbada que existe. Sua religião, sua verdade incondicional e imutável é apenas uma negação. Como diria Pondé: isso é “olhar nos olhos do vazio que nos habita”, ou seja, se fundamentar no nada. O ateu verdadeiro, aquele que afirma não ter religião por não acreditar num deus, deve encontrar para sua rotina um farol, algo que o mova. Isso muitas vezes é difícil quando se é um cético. Diante disso, Chesterton diz: “Não há problema em não se acreditar em Deus; o problema é que se acaba acreditando sempre em alguma besteira”.

domingo, 20 de maio de 2012

Saltos largos ou saltos curtos?

A natureza não dá saltos, dizia Darwin. Postulação tal que, de certo modo, vai de encontro á ideias da seleção natural. Huxley, amigo de Darwin, o alertou dessa contradição dias antes da publicação de “A origem das espécies”. Mas onde se encontra a dita contradição? Ora, a teoria da evolução em momento algum faz referência à quantidade de tempo necessária para o surgimento de mudanças nos organismos, inclusive o que os registros fósseis demonstram são, na verdade, saltos entre diferentes espécies que obviamente possuem proximidades filogenéticas, sendo raras as formas transicionais. Darwin, como grande admirador da geologia, acreditava que as mudanças tanto biológicas como geológicas ocorrem muito lentamente, pela soma de ínfimas alterações que com o tempo geram abismos de diferenças, pensamento filosófico intitulado como gradualismo, pensamento esse defendido no “A origem das espécies”.

Do outro lado, a teoria do equilíbrio pontuado intitulada por Gould e Eldredge, de certa forma se opõe ao gradualismo de Darwin. Ela diz que os organismos são, geralmente, estáveis em um sentido evolutivo, sendo o processo de especiação o principal catalisador de variabilidade desses organismos. Dessa forma, as populações passam um grande período de estabilidade evolutiva, até que ocorra algum fator secundário que irá iniciar um processo de especiação, inicia-se então um período de instabilidade evolutiva pontual e “rápida” (em comparação do gradualismo de Darwin) que culminará no aumento de variabilidade de organismos frente ao surgimento de novas espécies. Posteriormente a estabilidade evolutiva é novamente restaurada e assim se dá o equilíbrio pontuado das espécies.


Como Gould diz, ambos são pensamentos que se completam. Devemos ter em mente que os processos naturais são extremamente complexos. Nossa percepção limitada do mundo nos permite apenas o entendimento em parte daquilo que observamos, portanto, devemos manter sempre uma visão sóbria desses processos evitando ao máximo as limitações de uma visão reducionista, visão essa que me parece muitas vezes ingênua e destoante frente à complexidade dos processos biológicos que nos rondam. Devemos, portanto, ir contra a tendência reducionista que vivemos hoje, o resgate da visão sistêmica é essencial para que a ciência permaneça sendo realista e condizente com o mundo em que vivemos. Às vezes me parece que caminhamos para a ciência dos sonhos, ilusões fantasiosas, existentes apenas em um mundo imaginário molecular e subatômico, delírios quânticos que beiram as linhas do aplicável e do tangível.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Saudade


                                         Memória
                                       Amar o perdido
                                       deixa confundido
                                       este coração.

                                        Nada pode o olvido
                                        contra o sem sentido
                                        apelo do Não.

                                        As coisas tangíveis
                                        tornam-se insensíveis
                                        à palma da mão

                                         Mas as coisas findas
                                         muito mais que lindas,
                                         essas ficarão.


                                                             Carlos Drummond de Andrade


      Cansado do meu excesso de palavras, demonstro-lhes um exemplo de genialidade escrita. como pode alguém traduzir sentimentos tão intransmissíveis, de uma forma tão simples e bela? 

sábado, 31 de março de 2012

Discorrendo sobre a racionalidade


         Nós, sapienses, sempre nos gabamos de nossa inteligência superior. Muitos a relacionam com o fato de termos quebrado as barreiras da irracionalidade, mas em um contexto evolutivo, às vezes me pergunto, o quanto de vantagem existe nisso? Questões ligadas a irracionalidade, ou seja, o comprimento exato de etapas da historia de vida das espécies, não existem por nada. Tais comportamentos foram selecionados por algum motivo e dessa forma, permitem àquela espécie seu sucesso adaptativo em um contexto ecológico muito maior, esse contexto muitas vezes ultrapassa os limites da individualidade, abrangendo toda aquela espécie em um sentido muito mais amplo, alem de nossa limitada capacidade de hipotetização. Vou dar-lhes um exemplo: a gralha azul é um pássaro bem inteligente, para garantir sua boia, ela enterra os pinhões que coletou durante o dia. Posteriormente ela vai ao local onde depositou aquele pinhão e o come, que corvideo bem inteligente, mas alguns pesquisadores não concordam com essa minha afirmação, sabe por quê? Esse animal de penas azuis nunca desenterra todos seus pinhões, muitos biólogos dizem que ela não lembra onde os enterrou, mas pra mim é a sabedoria da irracionalidade falando. Esse pinhão esquecido irá gerar futuramente uma arvore que irá produzir alimento para os bisnetos da gralha.

     Nossa racionalidade nos permite passar por cima desses comportamentos aparentemente dispendiosos e pouco eficientes, não faz sentido esperar que arvores deem frutos naturalmente em seus ambientes se podemos limpar um campo e plantarmos ali apenas algumas espécies de nosso interesse. Não pensamos que o solo necessita de um ciclo bio-geo-quimico complexo para se manter fértil e quando percebemos isso, inventamos uma coisa extremamente cara e poluente chamada fertilizante. 
        
         Nossa inteligência nos permitiu criar atalhos dentro de processos e ciclos naturais importantíssimos de nosso planeta e dessa forma os alteramos, mas será inteligente irmos contra milhares de anos de adaptações? Muitos têm a prepotência de achar que temos muito a ensinar a comunidades indígenas, mas acho que as conexões que essas comunidades possuem com seu ecossistema são de uma sabedoria extrema e tais conhecimentos nunca deveriam ser esquecidos.

Às vezes acho que nossa inteligência nos proporcionou até mesmo a fuga, pelo menos em parte, das forças de seleção natural. Temo pela destruição de nossos habitats, digo isso não porque acho que vamos acabar com o planeta, acho essa ideia um pouco ingênua, temo sim por nossa espécie. Escrevi uma vez, em resposta a um comentário de um grande amigo, algo sobre o assunto, fecho esse post com parte da resposta.

 ... “já discutimos as questões de pressão de seleção na nossa espécie, continuo a pensar que a partir do ponto onde estamos, nossa evolução como espécie não será regida por forças de seleção natural, e sim pelo acumulo do nosso conhecimento. Ainda estamos à mercê de pressões seletivas, não nego, mas com o advento da medicina, da agricultura e da ciência em geral, construímos a nossa volta um "ambiente despressurizado", diminuindo a ação de tais forças na nossa sobrevivência e sucesso reprodutivo. Tenho medo quando penso que talvez, em um futuro próximo, essas pressões de seleção virão de nossa própria espécie. A guerra, a fome e a sede talvez tomem as rédeas que tiramos, em parte, “da mãe natureza”. Será que algum dia, comportamentos relacionados a questões como consciência ambiental e controle populacional, serão caracteres distinguíveis como essenciais ao sucesso evolutivo de nossa espécie? Assim como o anualismo foi, e é, importantíssimo aos Rivulideos. Nossa inteligência (i)racional é um fator evidente de nossa evolução, será também o fator chave de nossa extinção?

domingo, 25 de março de 2012

Adaptação


Seria a adaptação uma tendência universal das coisas? “acomodação às condições” diz o dicionário. Certamente os biólogos lendo esta página logo pensaram em evolução, seleção natural e todo o darwinismo característico dos naturalistas, mas um químico também observa em seu objeto de trabalho características de adaptação, a tendência ao equilibro osmótico não seria uma forma de adaptação? A formação de sais ao se misturar ácidos e bases também não o seriam? Um físico que observa a tendência a estabilidade de átomos ao formar moléculas, não estaria ele observando algum tipo de tendência à adaptação? Um (a) psicólogo (a), que observa e analisa uma mudança de comportamento em seu paciente, não estaria vendo ali adaptações?

Adaptação me remete a pressões de seleção, então me pergunto: existe algo mais incrível? Tal qual o pincel do pintor, os esquadros do arquiteto e a espátula do escultor, as pressões de seleção moldam os organismos a seu bel-prazer. Da mesma forma que Tarsila pintou abaporu, obra genial e símbolo da antropofagia modernista, o meio modela os organismos que ali vivem. Exigências atendidas são recompensadas com o direito a vida, na dura batalha pela sobrevivência. Aqueles que recebem a dádiva da adaptação resplandecem e simplesmente perpetuam-se, seguindo o único objetivo da vida: ser aquilo que se é, ser for bom o suficiente, ganha-se por direito a possibilidade de continuar vivendo, pelo menos em parte  (como Genes, leia "O gene egoista"),  dentro da linhagem dos adaptados.

 Como posso não me extasiar ao observar a forma como os peixes que trabalho estão adaptados ao seu meio? Sabe aqueles campos, tão comuns nos pampas, ali se formam poças, ninguém da à mínima para essas poças, mas ali, tal como perolas, emergem peixes; resultado magnífico: adaptações comportamentais, morfológicas, fisiológicas e moleculares. Como não se entusiasmar ao ver a forma como as águas do sul da nova Zelândia e da antártica exigem, cada local a sua maneira, adaptações diversas de um mesmo grupo de peixes, uns mantendo suas adaptações á variação térmica e outros perdendo-as. 

A adaptação é a tendência natural das coisas, a procura pelo equilíbrio, mas quando já alcançamos um nível considerável de adaptação, ou formas de construir adaptações através da inteligência, qual o próximo objetivo da vida? Acho que o objetivo maior de nossa espécie é simplesmente a felicidade no contexto que for.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Livros e filmes

     Existem duas formas básicas de se separar literatura, aqueles livros que são muito bem escritos e originais, uma leitura gostosa, agradável, muitas vezes best-sellers aclamados por todos como suprassumo, logo irão virar filme ou alguma série e gerarão mais alguns milhares de dólares para alguns poucos. E existem aqueles que trazem consigo mensagens profundas, pensamentos loucos, projeções, análises e até mesmo ensinamentos éticos valiosos.

      Cada tipo de livro possui suas vantagens e aplicações. O primeiro tipo é entretenimento, quase como uma novela da globo, são como o soma de Huxley. É possível compará-los ao álcool em excesso, dopante, fuga de inquietações e angústias, quase um sonífero. Inundam sua mente de um branco frio e profundo, tão reconfortante quanto Wilson foi para Chuck Noland em “O naufrago”, e da mesma forma vazio. 

     Já o segundo tipo, é aquele que te faz exercer seu papel de ser pensante, entre frases e parágrafos se encontra oculto esse “algo a mais” a que me refiro. Ali, naquelas palavras, se encontram ideias impossíveis (ou proibidas) de serem expostas diretamente, sendo necessária a construção de todo um universo fictício, historias fantásticas, para que tal sentimento possa ser expresso e transmitido, implicitamente. Esses livros são como cocaína, estimulante e viciante. Causam uma eminência epilética, convulsão frente à explosão sináptica de uma “brainstorm” de pensamentos, a batalha para ir além. São livros como senhor dos anéis, clube da luta, qualquer um de Orwell e Huxlay, Laranja Mecânica e tantos outros. Essa analise é valida para todas as mídias existentes, não só para livros. Oque dizer da trilogia Matrix? Pode ter se baseado em alguns livros, mas foi para mim tão profundo quanto 1984. 

      Esses livros e filmes nos ajudam a ir além. Sigo tentando, procurando, nem sempre conseguindo, perdido em pensamentos confusos e desconexos, sigo olhando o mundo através de uma janela com vidros escuros, quem sabe um dia encontro uma rachadura que me ilumine e me permita o vislumbre daquilo que me ronda?? Por enquanto me contento com a visão de sombras e vultos disformes.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Só o terceiro chimpanzé tem úlceras

            Certamente um dos processos fisiológicos mais mal interpretados dentre os vertebrados é o estresse. Provavelmente apenas o fato de ler essa palavra já cause angustia em algumas pessoas. É, mas você deveria saber de uma coisa; esse processo tão estigmatizado entre nós, foi e ainda é, extremamente importante para a história evolutiva dos vertebrados. Eficiência é uma palavra que combina com sucesso adaptativo, acredito que qualquer evolucionista irá concordar com essa premissa, dai então a importância do estresse (sentiu novamente aquela pontada na espinha não é?). É possível caracterizar esse processo como a redistribuição de reservas energéticas entre os sistemas do organismo em questão, portando, pode-se dizer que o estresse prepara o organismo para sobrepor (ou pelo menos tentar) algum acontecimento muito importante que ocorrerá num futuro próximo, como a disputa por uma fêmea, voce fugindo de uma zebra ensandecida (que por tocar no assunto, não tem ulceras. Google) ou conhecer o seu sogro (sim ele te odeia) numa ocasião totalmente inesperada, na qual você está totalmente despreparado e talvez até mesmo sob efeito de alguma substancia psicoativa ou apenas com uma puta de uma ressaca.

         Sim, os animais redistribuem suas reservar energéticas, pense: Para disputar aquela fêmea, um hipopótamo vai querer ter eficiência na sua contração muscular afim de não apanhar do outro macho de 3 toneladas que possui enormes pares de caninos, da mesma forma, você vai querer ter folego para correr como o Forrest Gump ao fugir daquele equino monocromático, além de ter reflexos rápidos para escapar de seus coices, visto que obviamente, a zebra é mais rápida do que você. No caso de seu sogro, esqueça, você já está f(u)dido. Usei esses exemplos para tentar demostrar o que ocorre durante o processo de estresse: o hipotálamo (aquela parte do teu cérebro que controla coisas como suas emoções) estimula o Sistema Nervoso Autônomo Simpático e aumenta sua glicose plasmática (aquele açúcar que fica no sangue e é usado na respiração de todas as células do teu corpo, Glicólise e ciclo de Krebs, blabla.) pela liberação de catecolaminas (como a adrenalina) e corticosteroides, essa glicose é gerada a partir das tuas reservas de glicogênio hepático, lipidios e proteína.
   
       Tudo muito bom, tudo muito bem, mas para ocorrer tal aumento na eficiência dos sistemas descritos anteriormente, toda essa “energia” deve sair (ser realocada) de algum lugar certo? Claro, acredito que ao fugir de uma horda de leoas famintas e psicóticas, um grupo de antílopes não se importará em deixar de investir, momentaneamente, no seu sistema imune nem em fatores importantes de sua reprodução (gametogênese, maturação de suas gônadas) e muito menos em suas defesas antioxidantes a radicais livres.

        Certamente a palavra mais importante que usei no paragrafo anterior foi momentaneamente. Perceba que toda a genialidade, se é que esse é um adjetivo válido, do processo de estresse é seu curto período de duração, pelo menos em teoria. O problema (antropológico) do estresse é sua cronificação, que causa problemas reprodutivos, imunológicos, psicológicos, acredito que não preciso citar os danos relacionados ao estresse. Acredito que o nosso grande problema com o estresse seja a nossa complexidade psicológica que se encontra desnorteada em uma sociedade caótica, na qual as principais (e talvez únicas) problemáticas de todas as espécies (nascer, crescer, reproduzir muito, morrer e durante tudo isso, ter o que comer e agua para beber), foram rebaixadas a questões supérfluas frente a preocupações “maiores” como a crise global, suas publicações, a menstruação atrasada da sua namorada e o Brasileirão. É curioso observar esse paradoxo; as mesmas questões que nos tornam tão especiais dentre nossos irmãos chimpanzés (e dentre todos os animais) são as mesmas questões que nos provocam tantos males.

       A capacidade de prever, hipotetizar, interpretar e racionalizar certamente foram questões muito importantes para os homens de Cro-magnon e Neandertais, sendo também muito importantes para nós até hoje, mas perceba que acabamos por nos tornar eficientes torturadores de nós mesmos. Existe uma tortura chinesa muito conhecida, chamada a gota chinesa: a pessoa é amarrada a uma cadeira e sua cabeça é presa de tal forma que possibilite o lento gotejar de agua em sua testa, aos poucos, seu crânio vai sendo perfurado pela agua. Entenda que o principal mecanismo danoso dessa tortura não é a intensidade da dor, que no caso vem depois de horas de tortura, sendo pouco eficiente, mas sim na previsão de quando a gota cairá. É exatamente oque ocorre conosco, somos muito eficientes em planejar, hipotetizar e prever, muitas vezes acabamos por nos torturar psicologicamente apenas pela constante lembrança daquela prova futura, do medo de conseguir uma pós boa, não ser um desempregado, não perder o dinheiro que você aplicou no mercado imobiliário dos EUA, Et cetera. Percebe? Tornamos crônico o estresse apenas por sermos seres extremamente inteligentes (?????) e nós nos estressamos por questões supérfluas. Uma zebra só vai liberar catecolaminas e corticoesteroides quando estiver batalhando por sua vida, por sexo ou comida, coisas tão fáceis para nós hoje em dia (se tiver dinheiro é claro).

       Em resposta ao titulo deste texto:  o processo crônico de estresse faz com que as concentrações plasmáticas de corticoesteroides estejam sempre altas. Esses hormônios inibem a produção de prostaglandinas, substâncias usadas na produção do muco protetor das paredes do nosso estomago. Na falta desses compostos, não produzimos esse muco e o nosso ácido estomacal ataca as paredes do nosso estomago, temos portanto, úlceras (nesse caso, nervosas).