Somos animais, como tal, possuímos olhos, nariz, ouvidos, pelos. Estruturas que nos permitem perceber o mundo a nossa volta a partir de diversos sentidos; olfativos, sonoros, térmicos, enfim, uma infinidade de formas. São essas estruturas, e portanto as experiências que respectivamente proporcionam, que nos permitem a concepção do mundo em que vivemos. Pensando no fato de que cada individuo possui uma forma muito intima de percepção sensorial, acredito que formamos, cada qual, sua ideia única de mundo. Verdadeiros e diversos universos pessoais, nos quais somos eternos solitários. Mas na verdade não é esse o ponto em que eu queria chegar.
Tanto a anatomia como fisiologia comparada nos mostram que a percepção sensorial possui grande plasticidade entre organismos, dessa forma, diferentes espécies percebem o mundo de diferentes formas. Peixes possuem linha lateral, morcegos ecolocalizam e fêmeas de grilo (grilas?) sabem dizer apenas pelo canto, se seus machos possuem ou não parasitas. Adaptações que nós, macacos, não possuímos. A partir disso, percebo que nossa concepção do mundo é limitada exatamente por possuirmos uma percepção limitada. Então pergunto, temos capacidade de, a partir de conceitos únicos e exclusivamente testados e comprovados empiricamente, obter conhecimento verdadeiro sobre o mundo? (baseando-se numa percepção precária).
A concepção de que apenas o conhecimento comprovado empiricamente possui valor me incomoda. Acho um desperdício possuirmos uma mente tão fértil e nos atermos tanto no “comprovado e comprovável”. Agora sim começo a falar do que realmente era meu alvo inicial, a crença e o ateísmo.
Acho que a busca de respostas para tudo é algo intrínseco do ser humano. Nossa capacidade absurda de observação, racionalização e argumentação, e consequentemente de aprendizado, é o combustível dessa busca incessante, o problema é que adoramos verdades universais e imutáveis, algo em essência inalcançável (sim sou um cético daqueles bem chatos). A partir dessa adoração à verdades universais, surgem respostas supremas, como deus, o aquecimento global e para alguns o ateísmo (só a parte idiota deles).
Visto que tratam-se de verdades inalcançáveis exatamente por extrapolarem nossa limitada capacidade de percepção, atuam ao meu ver, muito mais na metafísica. Meus amigos cientistas e pesquisadores vão querer me matar, mas acho que as leis da evolução também possuem sua parte metafísica, por mais que sejam permeadas por bases empíricas. Como resultado metafísico, acho que as religiões são o reflexo do ser humano e negá-las (não no sentido de crença, sim no da ridicularização) é negar a humanidade em si, assim como sua capacidade de construção mental.
Onde entra o ateísmo na história? Agora. Por muito tempo fui um desses militantes ateus, os que acima chamei de idiotas. Idiotas primeiramente por escolherem o ateísmo como forma de chamar atenção ou se autoafirmarem como mais inteligentes. O ateísmo per se nada tem de inteligente, é simples negação, não tem argumento nem conclusão: Não existe deus algum. O argumento e conclusão não vêm da essência ateísta por si, vem sim do Darwinismo. Esse sim é o ateu que eu respeito e o qual me considero. A partir de bases empíricas (Darwinismo), racionalizo e concluo que não existe deus. Eu poderia fazê-lo também a partir de outra racionalização, se deus é bom e ele governa o mundo, por que o mundo é ruim? Concluo novamente: Não existe deus.
Essa conclusão vem de um pensamento cético e de certa forma pragmático, nem todas as pessoas conseguem ser assim tão céticas, por mais que não acreditem num deus não abraçam o ateísmo por pura covardia. Acho que o ateísmo e a crença são como capacidades, você é crente ou ateu, é difícil cambiar entre os dois pensamentos.
Voltando a religião. Despindo-a do contexto metafísico explicativo da origem e desenvolvimento da vida, a religião opera em sua forma mais iluminada (sim seu neo-iluminista estúpido, o termo não é mero acaso!), como farol para nossa vida, guiando-nos pela nossa existência contestadora e frustrada. A religião, num sentido sociológico, é o ópio. Hoje em dia respeito muito mais as diversas religiões e não vejo nada de estúpido ou atrasado nelas, sinto até inveja daqueles que creem em algo e que em deus, (poderia ser no macarrão também, não importa) encontram conforto.
Voltando aos ateus. O tipo de ateu (a parte deles que é estúpida) que mais me incomoda é aquele que toma o ateísmo como uma religião. Esse é o tipo de pessoa mais conturbada que existe. Sua religião, sua verdade incondicional e imutável é apenas uma negação. Como diria Pondé: isso é “olhar nos olhos do vazio que nos habita”, ou seja, se fundamentar no nada. O ateu verdadeiro, aquele que afirma não ter religião por não acreditar num deus, deve encontrar para sua rotina um farol, algo que o mova. Isso muitas vezes é difícil quando se é um cético. Diante disso, Chesterton diz: “Não há problema em não se acreditar em Deus; o problema é que se acaba acreditando sempre em alguma besteira”.
Uma coisa que me chamou a atenção, quando tu fala dos sentidos e o empiricismo parece que tu esquece que existe uma diferença entre o que se percebe ou se sente e o que se compreende ou o que se sabe. No caso da grila, por ex., é muito improvável que ela saiba (como tu disse) se o parceiro em potencial tenha ou não parasitas, é muito mais plausível interpretar o caso como se o processo evolutivo tivesse desenvolvido no cérebro dela a capacidade de perceber certas variações no canto do parceiro como cantos mais atraentes. Na mente da grila existe apenas a atração e não a compreensão de que aquele tipo de canto indica que o parceiro é resistente à parasitas.
ResponderExcluirOutra coisa nessa questão, é que humanos conseguem de certa forma transcender essa limitação imposta pelos sentidos, através da tecnologia. Telescópios, microscópios, spectômetros, sonares, radares, contadores geiger, detectores de raios gamas, etc.. Nós temos a habilidade de traduzir para a nossa capacidade sensorial inúmeras informações de sentidos que nunca existiram. Se entendessemos que no empiricismo existem apenas experiências obtidas através dos nossos sentidos inatos, o que se entende por ciência ficaria ainda mais metafísico do que é...
Realmente helio, faltou ali dizer que a grila "sabe". Na questão da percepção, acho que mesmo considerando toda a gama que dispomos para expandir nossa percepção, ainda somos extremamente limitados, sem falar nos erros de interpretação nos quais certamente pautamos nossas conclusões. Acho que somos muito eficientes em ignorar inconsistências na ciência. Um exemplo é abolirmos a ideia de integralidade nos processos fisiológicos dos diversos organismos que pesquisamos. Se sabemos que um organismo funciona numa base "compartimentalizada" mas altamente e complexamente integralizada, como podemos aceitar com tanta facilidade estudos realizados in vitro? nos quais são observados apenas processos "desmembralizados" e fora de um conceito organísmico?
ResponderExcluirMas a única forma de entender processos complexos é simplificando. E metódicamente tu deve adicionar elementos e eventos reais para cada vez mais contextualizar o processo dentro de uma realidade o mais natural possivel.
ExcluirPor isso deve-se levar em consideração que por mais que um processo ou evento pareça "real", ele pode estar sendo mal interpretado devido ao grau das análises feitas. A história do estudo da evolução é assim, e por ser uma ciência tão ampla e pesquisada de tantas formas, ela ja é encarada como um tipo de lei biólogica, mesmo faltando muitos pontos a serem eclarecidos.
leia-se contexto e não conceito no meu comentário acima...
ResponderExcluirEu acredito que o ateismo praticado religiosamente de fato é algo meio podre, mas não posso negar que um certo tipo de militância é necessário. Veja bem, vivemos em um país com muitas liberdades nesse ponto, e culturalmente somos bem heterogêneos, o que facilita a pratica de cultos ou falar mais abertamente sobre o seu ceticismo. Porém, militar pelo ateísmo é de certa forma militar pela RAZÃO, é militar pelo bom senso, pela justiça. Se vivêssemos em um país do oriente médio, certamente poderíamos ser mortos por apenas levar em discussão isso, e ora, há como aceitar isso? Militar pelo ateísmo é uma forma de lutar pela liberdade, pois querendo ou não, todas as religiões somam forças justamente contra os descrentes, e essas forças são político/econômicas, o que reflete em muitos pontos vitais da sociedade, como ciência, educação, saúde etc.
ResponderExcluirEu não proponho atacar religiões, mas sim, tentar tornar a sociedade indiferente para a classe (ateus) que não banca bilhões de dinheiros para sustentar enganadores e megalomaníacos sedentos de poder.
Certamente uma questão biológica sustenta toda essa situação, porém, como humanos, perdemos tantas características originais da nossa cultura e comportamento que não vejo porque aceitar a fé como algo normal, não é. Mas divagar sobre efeitos da seleção natural sobre a sociedade religiosa é algo deveras complicado e cansativo. Mas parece lógico que não há como ser uma pessoa realmente de bem consigo mesma quando a mente está cheia de falsas certezas(que é o que a religião faz), que na hora de dormir são sempre espancadas por duvidas e mais duvidas, pois afinal, quem tem fé, tem medo de morrer, cadê a lógica?
Racionalizando a respeito de Deus, chega-se à conclusão ateísta: a não existência do Mesmo. Emocionando-se em cultos onde a fé é pregada, chega-se ao fanatismo religioso. O Equilíbrio é uma linha tênue entre razão e emoção; os ateus darwnista afirmam a não-existência dos deuses religiosos, mas não a inexistência de um Deus transcendental, criador e causador de todos os efeitos. Sim, há leis da física moderna que teoriza que o Universo poderia ter nascido dele mesmo, sem precisar de um Criador; pois é Stephen, a teoria é boa, mas isso ainda precisa de uma causa; O absurdo da vida faz o sensato refletir sobre sua condição: uma mente que raciocina a ponto de realizar projetos muito úteis, e um corpo dotado de emoções incontroláveis; o sábio é aquele que junta razão e emoção e entende a graça que podemos ser raciocinando e sentindo a vida;
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